Wednesday, August 05, 2015

Universo

Nós também podemos aprender através dos outros. 
Esses últimos meses desde que voltei dos Estados Unidos, estive refletindo sobre algumas coisas. Pensando na minha vida nos últimos três anos e no quanto tudo mudou tão drasticamente.
No Rio Grande do Sul, nos últimos dois anos eu tinha uma vida calma, não participava quase nunca de festas, raramente bebia, meu tempo era diligentemente direcionado ao meu ex namorado e sua família, meus estudos, meu trabalho, meu cachorro, minhas plantinhas, meus desenhos, minhas músicas, meus livros... Noites de inverno assistindo filmes, bebendo chocolate quente... Então a tristeza veio, a sensação de algo errado, a sensação de estagnação, de lugar errado, de tempo mal aproveitado, de cansaço, de saudades, de se sentir sozinha mesmo rodeada de pessoas. Parece ingratidão, mas não era isso, a gente só pode dar o melhor de si quando nos sentimos bem com nós mesmos. Não foram as pessoas, nem o lugar em si. Era eu que tinha essa necessidade emergente de movimentar minha vida, de lutar pelos meus sonhos, de fazer valer algumas privações que me submeti em prol desses sonhos.
Então eu decidi viajar, fazer o intercâmbio. Pois quem me conhece bem, sabe que eu SEMPRE quis fazer isso! E fiz! Foram em torno de três meses organizando essa viagem, muitos obstáculos apareceram dificultando muito mais a minha vida, mas no fim deu tudo certo. À princípio eu queria ir para a Irlanda, estava obcecada pela Europa. Mas de última hora, até hoje eu não me lembro como foi e porque eu mudei de ideia, decidi ir para os Estados Unidos, muito mais difícil de entrar, por contra da burocracia do visto e tudo mais. Contudo, eu mudei todos os meus planos e escolhi a Flórida, que também não foi minha primeira escolha. Eu queria ir para Denver no Colorado. Mas decidi ir para Fort Lauderdale, me apaixonei pela cidade só de ler sobre ela na internet. Eu nunca gostei muito de praias, sempre preferi as montanhas, porém decidi diversificar. Hoje eu posso dizer que amo praias! Lembro que estava morrendo de ansiedade e medo por conta de tal decisão, afinal era um risco, e um grande investimento de tempo e dinheiro que estava em jogo.
Foi a melhor escolha que já fiz em minha vida, valeu cada sacrifício que fiz para estar lá. Foi uma experiência inesquecível, mudou completamente a minha vida, a minha percepção de mundo e o meu coração. Lá eu pude testar meus limites, meus medos, minhas euforias, eu me joguei de cabeça naquela experiência, quem me conheceu lá sabe que eu aproveitei o máximo que pude. Conheci muitas pessoas, fui em muitas festas loucas, conheci muitos lugares legais, diferentes, vivi experiências e situações emocionantes. Entretanto, o que eu mais amei foram as pessoas que eu conheci. Dizem que leva um tempo para você realmente amar alguém. Eu não sigo essa regra. Eu aprendi a amar pessoas no primeiro instante que pus os olhos nelas, e esse amor continua crescendo mais e mais. Amigos que eu vou guardar para o resto da vida em meu coração e farei de tudo para revê-los novamente.
Eu sempre imaginei que cada pessoa é como um universo, cada um tem seu conjunto de estrelas  e buracos negros, cada uma tem suas luzes, experiências de vida para compartilhar, todos podem viver o mesmo momento, mas nunca ter a mesma impressão sobre o mesmo. Isso é o diferencial do ser humano, cada um tem algo sem igual para oferecer, desde o mais superficial gesto ao mais profundo sentimento. Isso depende de como deixamos nossos corações abertos para cada um. Eu pude confirmar essa minha teoria com bastante precisão. Conheci verdadeiros universos que nunca esquecerei o aprendizado que absorvi. Sem preço.
 Lá eu pude explorar o que há de melhor em mim e também o pior, podendo assim me reciclar. Foi uma montanha russa, eu experimentei doces sentimentos, um deles foi a felicidade plena, que eu achei que nem existisse. Um dia na praia com a Núria e a Morgana, e a gente rindo feito loucas, sem explicação aparente, apenas por estarmos juntas, vivenciando aquilo ali... Eu me sentia feliz até quando estava sozinha, caminhando pela Las Olas, olhando os barcos, fazendo amizades com pessoas do mundo inteiro, observando as pessoas, observando aquele céu sempre ensolarado, de um azul tão puro... Sempre mais um dia completamente feliz... Eu fui total e sinceramente feliz lá.
Tinha aquele sentimento de apreensão o tempo todo, por estar em outro país, cujas regras eram mais rígidas do que as do Brasil, além daquela sensação nada agradável de estar gastando as economias, sem poder trabalhar e de onde tirar mais. Esse medo nunca passou. Pois era um sonho tão bom que o medo de estragar alguma coisa me assombrava todas as noites quando eu deitava a cabeça no travesseiro. Eu sempre trabalhei, sempre me sustentei, depois que fui morar sozinha. Sempre carreguei minhas responsabilidades com muita seriedade. Sempre fui uma pessoa de responsabilidades, nunca me deixei seduzir por vício nenhum. Para mim a coisa mais divertida do mundo era ir ao cinema ou ler um bom livro. Isso antes de morar nos Estados Unidos. Hoje o que me deixaria mais feliz é não estar aqui. É estar com os meus iguais, estar onde meu coração quer estar. Porém eu tenho esse "dom" de sorrir facilmente, eu guardo a tristeza no fundo do peito e sigo em frente tentando o máximo possível extrair um pouco de felicidade de tudo que eu tocar, tudo que estiver ao meu redor. Não posso reclamar de tudo que tenho vivido aqui, as pessoas, velhos amigos e minha família me acolheram de braços abertos, o meu retorno foi realmente desejado. Todas as pessoas que conheci aqui têm sido calorosas, demonstrando um afeto inestimável. Me alegra muito saber que amizades há muito não cultivadas, floreceram com ainda mais carinho do que antes, saber que eu não fui esquecida, que me tornei referência para algumas. Logo eu que nunca achei que fiz grande diferença na vida de alguém. Eu sou extremamente grata à essas pessoas que fazem parte de minha nova vida aqui. Elas não me deixam ficar tristes por muito tempo. Elas me dão sorrisos, e me distraem da saudade, que hoje é o principal sentimento em meu coração...
O que tem sido difícil porém, é que eu não imaginava que encontraria tantas diferenças aqui, que depois de uma dose insana de felicidade eu fosse me habituar facilmente à uma realidade que eu já não era acostumada, com responsabilidades ainda mais pesadas para eu carregar. Descobrir que não posso ser individualista e preciso pensar primeiro nas pessoas que amo e necessitam de mim. Eu quero muito fazer tudo com o coração aberto, com sincera vontade. Mas é difícil demais. Muito. Eu não tenho medo de me expressar, eu preciso fazer isso. Não quero guardar nada negativo dentro de mim, antes de ser honesta com os outros, tenho que ser honesta comigo mesma. Com a vida.
Esses dias estou sob a influência de um livro que li. O livro A Garota das Laranjas, de Jostein Gaarder me marcou de uma forma tão intensa, é como se tivesse extraído o gosto amargo que tenho sentido nos últimos meses através de uma pergunta. Se nós pudéssemos ter a  escolha de nascer ou não neste mundo, e assim abdicarmos de nossa experiência mundana, de todas as vivências, por sabermos estar aqui na terra apenas por um curto período de tempo. O que eu faria? Eu direcionei essa pergunta à um âmbito mais pessoal. Se eu pudesse escolher não ter conhecido certas pessoas que me marcaram tão intensamente, e assim não sentir a dor do adeus, do desapego. Eu acredito que existem pessoas que serão como um turbilhão em sua vida, mas de forma absolutamente positiva e o mínimo que você pode fazer é tentar mantê-las o máximo possível em sua vida. Pensando na vida e na sua finitude, nada dura para sempre, inclusive os nossos amados. Sinceramente, eu não sei o que faria, e essa dúvida já é uma resposta.
Entretanto, eu quero ter fé. Eu tenho fé. Preciso resgatar essa fé. Que o tempo cura tudo, inclusive corações, memórias. Encontrar a felicidade dentro de mim e não representada por um lugar ou uma pessoa. Sei que isso é possível e exigirá um esforço tremendo. Aprendi, contudo, que coisas difíceis de se conquistar são igualmente difíceis de se perder.
Então deixo minha vida nas mãos do tempo e do meu esforço em tentar reencontrar a felicidade no meu universo particular.

Jo

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