Tuesday, September 08, 2015

Mais Fé.

Há 8 anos atrás eu trabalhei em uma escola municipal como bibliotecária, nas minhas sessões de leitura com os alunos, pude compartilhar com eles as poucas experiências que já houvera vivido, pois eu apenas tinha 19 anos naquela época. Contudo, já naquele tempo eu tinha meus sonhos muito bem elaborados, e o que me deixa muito triste é que alguns alunos não tinham sonhos, não almejavam um crescimento pessoal, muito menos sequer profissional. Me pergunto como alguns deles estão hoje... Sei que boa parte deles já estão no caminho do sucesso e isso me enche de orgulho.
Na rede pública de ensino ao que parece não houve grandes mudanças, por mais que muitos professores batalhem arduamente com classes abarrotadas de alunos, e cargas-horárias discrepantes, ainda assim encontramos muitos adolescentes sem motivação alguma sobre o futuro. Em 8 anos esse quadro ainda não mudou, e hoje pode-se dizer que é mais fácil ingressar em uma universidade, existem mais portas abertas, mais possibilidades para todos, exige-se todavia, um esforço árduo, afinal estamos falando do Brasil. Se você nasceu sem condições financeiras para custear boas escolas e etc... Prepare-se para a batalha da vida, aqui nada é fácil, mas é possível.
Portanto, é preciso que se abra a mente dessas crianças, que a esperança encontre lugar em seus corações, que elas não percam a fé em si mesmas, que tudo é passível de ser conquistado. Basta querer e lutar. Sempre tentei passar mensagens positivas aonde quer que eu fosse. Quando se é professor, o conteúdo pedagógico não é o único fator determinante para uma educação de qualidade, todo professor sabe disso. Nenhum aluno aprende se estiver desmotivado. E na situação do Brasil, se o aluno estiver cansado, com fome, emocionalmente debilitado, é uma série de fatores que influenciam no aprendizado e no lecionar. Trabalhar com seres humanos é estar atento a todos os detalhes, desde as características mais simples até as mais marcantes, sem discriminar. O desafio é como fazer tudo isso?! Eu não sou professora integral. Entretanto isso é importante para mim. Daqui a alguns anos quero ver frutos positivos do meu trabalho. Quero ver esses alunos seguindo a trilha do sucesso e da felicidade. E se eu tiver contribuído, nem que seja minimamente, eu já terei ganho meu dia!
Quero ressaltar que mesmo sabendo das problemáticas dos alunos, os professores também passam por trancos e barrancos para atingirem suas metas, e nem sempre estamos com disposição emocional para lidar com certos obstáculos. Também somos humanos, também necessitamos de apoio. Sim, neste caso vou entrar em um campo de discussão da qual não gosto nem um pouco. A política. A situação do Brazil está caótica, sem exageros em minhas palavras, políticos roubando abertamente, um dinheiro que deveria ser investido para resolver os diversos problemas de nosso país, a violência reinante, desde que voltei para o Brasil, há seis meses atrás fui assaltada duas vezes, e as pessoas acham isso "normal". Que a culpa é minha que fui descuidada. Agora andar na rua é direito de marginal e não de cidadão? Não estou julgando as pessoas que me fizeram mal, de alguma forma foi o sistema que os levaram ao mundo do crime. É triste e frustrante viver nessa realidade. A economia, os direitos trabalhistas, o cidadão pagando caro por um governo corrupto. ISSO SIM é desmotivante! As escolas não recebem recursos suficientes para incrementar a educação e os profissionais têm que se virar por conta própria para fazer valer essa educação.
Por que o país ainda não afundou de vez? Porque aqui é terra de gente que não desiste, mesmo em meio ao caos, é terra de gente que trabalha para sobreviver, gente que sofre, gente que sabe viver com poucos recursos, mas que nunca perde um motivo para sorrir. Terra de gente que mesmo sem sonhos, sem motivação, ainda assim consegue ser feliz. Afinal felicidade não tem nada a ver com status, com dinheiro, com ambição... Não quando o seu coração não se deixa corromper pela superficialidade. Como diria George Orwell, felicidade só pode existir se houver aceitação. Ou seja, aceitar nossas fraquezas, nossas riquezas e quem realmente somos. Não digo com isso que nos deixemos ficar na zona de conforto, ao contrário, temos a liberdade de lutar por tudo aquilo que quisermos, entretanto até nisto temos que estabelecer um limite. E é neste limite que devemos ter cuidado, ao não ultrapassar o limite de outros. Isso se chama RESPEITO. Está em falta no mundo. Não apenas no Brasil. Os políticos não respeitam a dignidade do povo, os governos não respeitam a liberdade de outros governos, é nessa falta de respeito e amor, que o mundo está morrendo, nos olhos de crianças abandonadas, de mães que perderam seus filhos, de filhos que perderam seus pais, de famílias desintegradas, pela dor, pela ganância, pela falta de respeito, se ao menos houvesse respeito de verdade...
Há 8 anos eu vi tristeza e desesperança nos olhos de um menino de 13 anos, viciado em crack, rindo da mera possíbilidade de terminar o ensino médio, eu vi nele a vontade de se curar do vício e ao mesmo tempo a impotência. Nunca esqueci e nem vou esquecer aquele olhar. Prefiro acreditar que hoje ele está bem, que deu a volta por cima, pois ele era forte e capaz. É com essa fé nas pessoas, nas possibilidades que sobrevivo. Fé em um mundo melhor. E fé com obras, pois de nada adianta fé sem obras, já diz a bíblia, eu tento fazer minha parte, por mais difícil que seja não se pode desistir.
O que eu quero da vida? É o que eu quero para o mundo todo.
Mais Fé. Mais Amor. E Mais Respeito.


Jo.