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Saudade
Essa palavra é minha velha amiga, uma companheira de estrada, aquela que está presente no coração dos viajantes, dos sonhadores, daqueles que desafiaram os limites da vida cotidiana para conhecer um pouco mais do mundo, talvez de si mesmo. Mas a saudade também pode ser um sintoma de nostalgia de fronteiras além da matéria, como o tempo. As memórias nos traem, nos assombram e nos acalentam...
Algum tempo atrás, li um depoimento de uma garota que morou alguns anos fora de casa, em outro país, e ela enfatizou algo que me prendeu a atenção imediatamente, sobre a forma como nos dividimos entre as vidas que tínhamos antes e a que escolhemos ter. Entre o lugar de nascimento e o lugar onde acabamos nos estabelecendo. Essa divisão é plausível sim, pois analisando bem, já não me sinto completamente Ceará, nem tampouco Rio Grande do Sul, sou um pouco dos dois, sou uma mistura, sou as minhas experiências mais sofridas e vividas, sou o amanhecer frio de junho, e o entardecer morno do sertão... Eu sou a tristeza perene por não acompanhar o crescimento dos meus sobrinhos, por perder os momentos importantes dos meus familiares, por não ter por perto o conforto materno, e a felicidade por cada dia conhecer melhor uma nova cultura, fazer novos amigos, novos lugares e novas experiências. Eu sou a solidão de quem vive só. Sou a alegria de quem é independente. Sou as minhas escolhas e também as minhas consequências, e cada dia mais escolhas, mais medos, mais divisões de mim mesma. É nessa divisão que busco a minha plenitude, a procura por mim mesma, moldando minha vida a cada escolha que faço, cada sacrifício, cada ganho. Não posso pensar em me arrepender de qualquer coisa que tenha feito, pois sem essas consequências eu não teria aprendido tanto.
Porém como diz a música, a vida que tivemos antes se foi e é difícil sem você agora, esse "você" é uma lembrança de uma vida, talvez da minha infância, daquela segurança. Sim é difícil viver sem o suporte de quem nos ama, sem a proximidade. É apenas necessário, cada um de nós constrói seu próprio caminho, a partir de si mesmo. Neste caso eu sou o meu início, e também o meu fim. E para que tudo valha realmente a pena, que tudo seja feito com amor, esse sentimento tangível que nos faz capazes de fazer coisas incríveis, que nos alimenta o espírito e as vontades, e claro, a velha companheira saudade, pois ela nos mantém ligados ao passado, às raízes, aos nossos amados. Portanto, eu sou metade amor e metade saudade por toda a minha vida. Amém.
Jo